Um Olhar Feminino
14 de Janeiro de 2010

Hoje, aos 42 anos, é que percebo o quanto vivi minha vida para os outros. Primeiro para os meus pais, depois para minha irmã, meus amigos, minha primeira grande paixão, meus outros casos, meu marido, a família do meu marido, meus filhos, meus novos amigos, conhecidos... Sempre vivendo para os outros, tentando agradar, me anulando como pessoa e como mulher, deixando de ser um indivíduo, deixando me depreciar, apenas para agradar aos outros.
É hoje sinto a infelicidade, a frustração de sentir que os outros não me consideram nada, apenas uma revoltada que decidiu falar e tentar reconstruir a sua vida, doa a quem doer. Fiz uma promessa a mim mesma: não irei mais me anular nem como pessoa e nem como mulher. Lutarei para ser alguém, para ser eu mesma, para voltar a ter minha individualidade e minha dignidade. E para isso preciso falar, contar, cuspir para fora a minha história, as minha mágoas, os meus sentimentos/tormentos. Infelizmente tudo isso não é bonito, mas alguém precisa dar o primeiro passo, mesmo sendo na escuridão, sem saber aonde vai se pisar e o que ou quem vai encontrar...
Sofri abuso sexual do meu pai durante vinte (20) anos. Na verdade poderá ser mais tempo, mas
a minha nítida lembrança é dos seis (06) anos aos vinte e seis (26), quando eu já estava prestes a casar e quando fui violentada por ele. Para minha “sorte”, eu já havia escolhido o meu primeiro homem, então a frustração foi a dele. Durante vinte (20) anos da minha vida vivi cercada de medo, de pavor; sofri não só a violência sexual, assim como a violência e a tortura emocional. Tentativas de me comprar, ameaças de todos os tipos. A pior de todas foi que se eu não me submetesse a ele, a próxima da filha seria a minha irmã, minha querida irmãzinha, doze (12) anos mais nova, um anjo na minha vida. Então, tive que me calar e aceitar. O pior e o mais triste é que minha mãe sabia de tudo e nada fez, me rejeitando, ficando ao lado do meu pai.
Mas o pior de tudo mesmo foi a vergonha, o nojo, a baixa estima que sentia de mim mesma. Não passava em frente aos garotos, nunca ia a uma festa, não me tocava, não me lavava no banho, cheirava (fedia mesmo) muito mal, afastando as pessoas de mim e sendo “chacota” de muitos. De ótima aluna passei à medíocre. A depressão tomou conta do meu ser e, sinceramente, não sei como não cometi um suicídio ou procurei as drogas.
Sexo para mim era um suplício! Não sentia vontade, prazer, só muito desconforto e dor. Somente a obrigação de agradar. Ao ponto de pedir ao meu marido para procurar uma amante e manter com ele (eu e o meu marido) relações, muitas vezes, uma vez por ano.
Paguei caro com a saúde física pela falta de saúde emocional. A depressão não me deixava, comecei a ter problemas de sono, de ansiedade. Não conseguia fazer mais nada por mim e nem por minha família. O stress aflorou com tudo, engordei trinta e oito (38) quilos e aí não saía nem à rua, com tanta vergonha de mim mesma. Deixei o meu trabalho, a minha carreira, os meus estudos, a minha família. E passei anos deitada numa cama, me “entupindo” de remédios de tarja preta, sem vontade de nada!
Mas ao fazer quarenta e dois (42) anos entrei realmente em crise e me achei velha, acabada e vencida. Então percebi que só tinha duas saídas: viver ou morrer. E eu resolvi viver. Comecei a me revoltar, a me defender, a ser sincera (principalmente comigo mesma). Só para variar, a agradar a mim mesma. A não me anular mais. Só com essa resolução senti que ganhei respeito meu e de alguns outros e, em menos de seis (06) meses, emagreci vinte (20) quilos, sem regime, sem esforço, sem exercícios, sem mudança de hábitos alimentares. E pretendo emagrecer muito mais, e poder me olhar no espelho sem me sentir humilhada e com vergonha. Apesar de não sentir pleno prazer sexual, sexo deixou de ser uma tortura para mim, e, está virando prazeroso. Minha estima aumentou. Tanta coisa está ainda prestes a mudar... E eu vou lutar com todas as minhas forças, vou me amar e me respeitar e ser respeitada e amada por outros
.
Minha história reflete, espelha a história de muitas crianças/adolescentes. Com uma única diferença: as crianças/adolescentes crescem e passam dos quarenta (40). Infelizmente só ouvimos falar de histórias sobre os menores, realidade essa muito cruel e triste. Nada sobre o sofrimento de mulheres adultas, somente das crianças. É para elas que se cria proteção, leis (na minha época não existia nada disso, este tipo de assunto era um tabu). É para elas que vai a pena, a consideração, a indignação.
E é por isso que eu, sempre tão introspectiva, resolvi me expor, contar a minha história. Com a intenção de “sacudir” outras mulheres maduras que passaram, passam por esse problema, NÃO, por essa tortura. Muitas delas, assim como eu, não estão vivendo, estão sobrevivendo. A sociedade precisa “acordar” e nos ajudar, estender a mão. Somos capazes como qualquer outra, não podemos nos negar. Precisamos de ajuda, de compreensão, de respeito e de muito carinho e amizade.
Esse apelo é para que as outras mulheres dêem o seu grito, peçam
ajuda e se ajudem. Vamos parar de nos esconder e tentarmos ser felizes. Vamos nos juntar, unir, formar uma associação ou uma instituição ou uma ONG. Se lutarmos por nos, poderemos lutar pelos outros. Vamos divulgar a nossa dor, a nossa luta e, principalmente, a nossa vitória. Só assim, finalmente, viveremos.

PS: Por favor, divulguem o meu apelo. Somente aqueles que passam por uma situação dessas, sabem o valor da ajuda e da compreensão de outras pessoas. Talvez, se naquela época eu tivesse algum tipo de ajuda, a quem recorrer, hoje a minha vida teria uma qualidade muito melhor.

Obrigada.

 Bya Alburquerque

publicado por umolharfeminino às 11:26 link do post
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