Um Olhar Feminino
30 de Janeiro de 2010

Felicio e Fernanda formavam um casal de entendimento quase que perfeito, se é que é possível um casal, formado por duas pessoas distintas, chegar no limite da perfeição. Eles eram e viviam a felicidade a ponto de causar inveja a quem viesse conhecer ou testemunhar a intensidade do amor que os envolvia. Duas almas que se uniam de tal sorte a parecerem ser uma única pessoa.
            Ela separada, ele viuvo, já haviam superado a barreira dos quarenta anos de idade, contudo vibravam e sonhavam qual dois adolescentes. Para eles era verdadeiro o ditado que diz: “A vida começa aos quarenta anos” , sentiam que para eles a vida estava realmente começando.
            Aliás, no clima idílico que viviam eles nem percebiam a vida fracionada em horas, dias, semanas, meses ou anos, era como se a existência fosse uma peça só, bordada de ponta a ponta pela bordadeira mor, a dona felicidade.
            Até a vida e o tempo pareciam parar para observá-los e se emocionar com o carinho que os dois partilhavam.
            Não se lembravam quando se falaram pela primeira vez e nem se preocupavam o quanto isso significava no tempo, queriam apenas usufruir do amor mútuo que os unia.
            Assim sem notar, eles já vinham celebrando diariamente a alegria de mais de quatrocentos dias juntos, fossem estes dias de sol ou chuva, feriado de gala ou mesmo uma comum segunda-feira.
            Namoravam e se falavam todos os dias, na mesma hora, no mesmo lugar, religiosamente sem falhar um dia sequer. Essa comunicação diária, as afinidades que desfrutavam, até as carências de cada um, os ligavam, ou melhor escreviam em nome deles uma linda história de amor.
No clima de felicidade que viviam, um dia sem trocar uma palavra corresponderia a um século de ausência, uma hipótese não cogitada por eles. Mas um dia...um triste dia...Felicio não apareceu...
 
Uma lacuna incomensurável estava se abrindo na vida do casal. Uma ausência significativa que se multiplicava aos milhares, aos milhões a expectativa do dia seguinte. Nova frustração, Felicio faltou novamente ao sagrado encontro dos dois. Apenas um silêncio frio e secular se fez presente embalando as lágrimas de Fernanda.
Não se falaram na segunda, nem na terça, nem na quarta, o que teria acontecido? Se perguntava a mulher carregando no peito uma saudade de três séculos. Era muito tempo para ela assimilar, muito tempo mesmo para quem estava acostumada a falar com o amado todos os dias.
Fernanda não sabia o que pensar e muito menos o que fazer. Quem havia aprendido apenas sorrir nos últimos tempos, agora precisava aprender a chorar, lamentar uma ausência de quase uma semana de quem mais amava. Incrível, se conheciam a mais de ano, mas ela não tinha o endereço dele, nem telefone, nada. Restava a mulher chorar uma ausência que parecia mutilar a metade de sua vida, talvez sua existência toda.
 
No Domingo, exatamente uma semana depois, o telefone com estridência soou interrompendo o pranto silencioso da mulher, que desesperada correu para o aparelho.
 Alo ! É a Fernanda ? – Falou uma voz feminina vindo do outro lado da linha.
 Sim sou eu. – Respondeu a mulher enxugando as lágrimas com as costas da mão.
 Aqui quem fala é a filha do Felicio...
Para Fernanda que nunca houvera mantido contato com nenhum familiar do namorado, aquele telefonema não parecia trazer boa notícia.
 Filha do Felicio ? Sim...deixa eu falar com seu pai...
 Ele não está, quero apenas comunicar algo a senhora que era vontade expressa dele.
 Vontade expressa? Você fala como se o seu pai estivesse morto!
 Infelizmente está. – Afirmou de chofre a voz em pranto do outro lado. Um colapso fulminante levou papai na segunda-feira.
 E só agora você me avisa menina ?
 Desculpe-me senhora. Foi apenas hoje revirando os documentos de meu pai que encontrei um bilhete e o seu telefone. O bilhete dizia, que se alguma coisa grave acontecesse a meu pai, a senhora deveria ser a primeira pessoa a ser avisada.
Fernanda estava arrasada e sem forças para mais nada, mal conseguiu colocar o fone no gancho caindo novamente em prantos. Queria tanto saber a razão da ausência do amado e agora recebia a notícia com todas as letras, no fundo ela sabia que só mesmo a morte poderia justificar a ausência tão prolongada de Felicio.
Tropegamente a mulher caminhou até a biblioteca e sentando-se a frente do computador, conectou-se na internet, indo diretamente para a estação “bate-papo”. Ela não queria acreditar nos fatos, Felicio haveria de estar ainda entre os tantos apelidos que na faixa etária dos quarenta e cinqüenta anos ali diariamente se apresentavam, Procurou...procurou...procurou... e em vão.
Ela e Felicio se conheceram ali, nunca tinham se encontrado pessoalmente, moravam a mil quilômetros de distância um do outro, mas se amavam mais que muitos que vivem a vida toda juntos.
Depois de meses de solidão, procurando um nick que se apagara de vez na internet, Fernanda passou a se refugiar em salas vazias, quem sabe a sós pudesse falar com o além, falar com o seu amado e saudoso Felicio.
 
Foi um dia desses que eu passando pelo “bate-papo”,ao ver uma pessoa sozinha em uma sala, por curiosidade resolvi entrar.O meu apelido quando freqüento o “chat” é Camaleão.
 
 Camaleão entra na sala
 
Camaleão fala para Fernanda: Bom dia! Tudo bem?
O silêncio foi a resposta. Cinco minutos depois eu insisti.
 Tudo bem Fernanda?
 Camaleão! O que você faz numa sala vazia?- Disse ela.
Não sei. Talvez o mesmo que você.
Novamente o dialogo foi cortado pelo silêncio.
Uma outra vez insisti.
Fernanda,estou triste...muito triste...Talvez o silêncio me traga aqui.
 Triste por que?Posso saber ? –Perguntou Fernanda.
 Por um erro involuntário meu, eu perdi uma amiga, ou melhor a mulher da minha vida.
 Perdeu?Não tem volta?– Indagou minha interlocutora.
 Se dependesse de mim, jamais iria me privar da companhia dela, não depende só de mim, não sei se ela me perdoa e volta.
 Se realmente ama e sente falta dela, procure-a, vá a luta.- Disse a mulher com voz de guerreira.
 Ela deve estar escondida nos milhares de apelidos que proliferam por aqui, é como procurar uma agulha em um palheiro.
 Não tem o telefone dela?
 Não!
 E-mail?
 E-mail tenho, mas as mensagens que mando voltam. Ela deve ter mudado o endereço da caixa postal ou então bloqueia as minhas mensagens.
 Amigos comuns que possam localizá-la?- Disse a mulher.
 Não possuíamos amigos, era eu e ela e nosso virtual romance.
 Se é como diz, se vale a pena procure a sua Camaleoa. Procure sem nenhuma trégua, não desista nunca amigo...
 Mas como vou encontrá-la entre tantos nomes fictícios?
 Camaleão, sua amada está aqui, qualquer hora vocês se cruzam e podem se entender. Amigo, já eu procuro alguém que não está mais aqui entre nós e ainda assim o procuro...
 
Foi quando ela me contou a sua história de amor com Felicio. Fernanda estava certa. Diante dela eu não tinha razão nenhuma para lamentar e sim milhares de motivos para lutar.
 Obrigado Fernanda, em nome do amor eu vou a luta.
 É assim que se fala amigo.- Disse a mulher saindo da sala.
Sai da sala também com um único propósito:
          Camaleoa, onde quer que você esteja me aguarde...eu vou encontrá-la e nessa hora que Deus te proteja e me proteja também, porque eu posso matá-la ou morrer de tanto amor.
conto de Mario Neves

 
publicado por umolharfeminino às 19:14 link do post
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